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A liderança do século XXI

No atual cenário sócio-ambiental, profissionais precisam repensar postura e modo de gestão. A degradação do meio ambiente chegou a um ponto que se tornou impossível para qualquer ser humano ignorar a necessidade de mudar sua postura pessoal e seus hábitos de consumo. Essa mudança passa também pela carreira de cada um, e pela gestão das empresas, que precisam tornar suas operações sustentáveis, sob o risco de não encontrarem mais recursos para produzir no futuro. Nesse contexto, os executivos e demais profissionais precisam agregar ao seu conhecimento técnico a visão de soluções de negócios inovadoras.

"É necessária uma mudança de padrão mental. Os profissionais precisam repensar qual é sua posição e seu papel em um mundo com essas características", afirma Manfred Max-Neef, economista e ecologista chileno. Ele esteve no Brasil participando do 15º Seminário Internacional em Busca da Excelência, realizado pela Fundação Nacional da Qualidade (FNQ), e falou com exclusividade a este jornal.

"Nenhuma circunstância, pode se sobrepor à reverência pela vida. A economia está para servir as pessoas e não as pessoas para servir a economia", afirma. "O desenvolvimento tem a ver com as pessoas. Os indicadores macroeconômicos ou do faturamento da empresa não se referem às pessoas. O desenvolvimento deve ser na dimensão humana."

Max-Neef critica a obsessão pelo crescimento e pela eficiência, no sentido de se querer produzir o máximo possível com o mínimo de tempo e dinheiro. "O crescimento não é o mesmo que desenvolvimento e o desenvolvimento não precisa necessariamente de crescimento", comenta. "A palavra de ordem deveria passar a ser fazer o melhor possível no tempo que for necessário."

Segundo ele, um processo de desenvolvimento é melhor, não quando o PIB ou o faturamento das empresas crescem, mas sim quanto mais qualidade de vida as pessoas ganham. "E a qualidade de vida depende da possibilidade que as pessoas têm de satisfazer adequadamente as necessidades humanas fundamentais, que são finitas, poucas e classificáveis. São invariáveis. As mesmas em todas as culturas e em todos os períodos históricos", ressalta Max-Neef. "O que muda são as formas e meios pelas quais elas são satisfeitas."

De acordo com ele, as necessidades podem ser classificadas de acordo com fatores ontológicos e axiológicos. As necessidades ontológicas são as de ser, estar, ter e fazer. As axiológicas são as de subsistência, proteção, afeto, entendimento, participação, ócio, criação, identidade e liberdade. Como líder, a começar, é necessário observar se suas próprias necessidades básicas estão sendo supridas e garantir que sua equipe tenha as suas supridas também. Mas em um ambiente de negócios no qual as pessoas são cada vez mais exigidas por eficiência, o afeto, entendimento, participação, ócio, criação costumam ser deixados de lado. E essa situação, que poderia ser chamada de degradação da ecologia humana é alarmante. Na visão de Max-Neef, qualquer necessidade humana fundamental que não é adequadamente satisfeita, revela uma pobreza humana. "Mas as pobrezas não são só pobrezas. Se forem suficientemente intensas e prolongadas, geram patologias que excedem o indivíduo e se convertem em patologias coletivas", diz.No âmbito das empresas é fácil identificar essas patologias nas pessoas que trabalham cada vez mais por poder e por dinheiro. "Quem valoriza demais o poder e o dinheiro é porque tem uma pobreza, uma necessidade fundamental que não é suprida", afirma.

Ao atuar dessa maneira, as pessoas contribuem para um estilo de gestão que objetiva produzir mais, vender mais e faturar mais. "Em uma sociedade que já consome em energia e recursos o equivalente a um planeta e 1/3, não se pode acreditar que o consumo e a produção devem aumentar. O que deve aumentar é o desenvolvimento humano, que não está necessariamente ligado ao crescimento", ressalta Max-Neef. Mas como mudar estando à frente de uma companhia controlada por acionistas que pressionam os executivos por resultados todos os dias? É o que o leitor pode estar se perguntando. "Quem quer mudar, muda. Não mudar é suicida e estúpido. Chamo de estupidez ter consciência do equívoco que se vai cometer e mesmo assim fazê-lo. Atualmente temos todas as evidências necessárias para evitar mais desastres ambientais", diz.

Ele acrescenta: "Quem diz que não é praticável mudar sua postura pessoal e de gestão dos negócios é porque não quer mudar. Claro que é difícil, exige determinação, mas quem o faz é quem vai ganhar." Max-Neef cita Fabio Barbosa, presidente do ABN AMRO, com quem esteve em outra visita que fez ao País. "Ele tinha uma gestão voltada para a sustentabilidade e mesmo assim garantiu a satisfação dos acionistas", comenta. O próprio Max-Neef mudou sua postura ao repensar seus objetivos pessoais e profissionais. Depois de formar-se em economia, aos 21 anos ingressou na Shell e iniciou uma carreira promissora como executivo da empresa. Aos 24, no entanto, quando se imaginou no futuro e se viu como um alto executivo negociando petróleo, percebeu que não era isso que queria. "O impacto dessa reflexão foi tão forte que no dia seguinte pedi demissão", conta.

Não é preciso ser tão radical quanto ele, mas as informações estão aí, a reflexão e a decisão cabem a cada um.

Gazeta Mercantil, Vida Executiva, Carolina Sanchez Miranda, 13/04/2007

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