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Um novo olhar sobre a inovação

As empresas brasileiras precisam rever suas estratégias para inovar, mostram estudos exclusivos do Monitor Group e do Banco Mundial.
Claudio Rossi


EXAME Mais difícil do que escapar da blitz de mídia que envolveu o iPhone, da Apple, é encontrar uma menção ao produto que não envolva a palavra inovação. O misto de telefone celular e computador de bolso merece ser chamado de inovador, é claro. O aparelho tem somente um botão em toda a sua superfície, algo nunca antes visto num celular. O software é o mais elegante e simples já utilizado num telefone de bolso, um feito ainda mais impressionante quando se sabe que a telefonia móvel já tem quase 30 anos de história. E a encantadora tela sensível ao toque faz todos os outros celulares parecerem dez anos atrasados, no mínimo. Juntas, todas essas novidades podem mudar o que hoje se entende por telefone móvel e garantir ao iPhone um lugar no altar das grandes inovações da história dos negócios. Bom para os consumidores, ótimo para os acionistas da Apple.

Mas, quando se fala em inovar no mundo dos negócios, será que faz sentido olhar para o problema como Steve Jobs? Para os especialistas no assunto, principalmente aqueles sintonizados com os desafios de economias emergentes como o Brasil, a resposta é não. Pensar em inovação como algo necessariamente revolucionário e de alta tecnologia é uma visão estreita e ultrapassada. "O conceito de inovação tem se expandido enormemente", diz o indo-americano Hitendra Patel, da consultoria Monitor Group. "Hoje, a inovação atinge qualquer ramo de uma organização. Geralmente nasce de uma série de ganhos incrementais." Em outras palavras, admirar a genialidade de Jobs e de seus produtos é perfeitamente razoável. Tê-los como única medida do sucesso, não. Existe outro aspecto fundamental que diz respeito à inovação, mas que sempre acaba ofuscado pelo deslumbre com as grandes novidades tecnológicas: a baixa capacidade de inovar das empresas nacionais é um dos grandes entraves para o crescimento da economia brasileira. Essa é uma das principais conclusões de um estudo do Banco Mundial, em fase final de elaboração, obtido com exclusividade por EXAME. O trabalho também aponta causas estruturais conhecidas de todos, como a baixa qualidade do ensino básico no país, e faz recomendações sobre o nível de investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D), tanto no setor privado quanto no setor público. O esforço deve ser amplo e depende de uma infinidade de fatores, que incluem até mesmo aspectos culturais. Mas a tarefa é urgente, e, como todos os empresários e executivos sabem, ninguém pode esperar o governo fazer o primeiro movimento.



A questão, na opinião do consultor Patel, é entender o que significa a inovação nos dias de hoje. Em seus períodos áureos, empresas como AT&T e Xerox contratavam os melhores cientistas do mundo, mantinham enormes centros de pesquisa e despejavam quantidades imensuráveis de dinheiro no esforço de encontrar alguma novidade -- qualquer que ela fosse. Aos executivos, só restava esperar que os homens de avental descobrissem algo genial. As novidades apareciam, sem dúvida. No Bell Labs da AT&T foi inventado o transistor, e no Parc, da Xerox, surgiram o mouse e a interface gráfica dos computadores. Mas esse modelo ficou no passado. Se antes as empresas restringiam o papel criativo aos cientistas e tecnólogos, agora a inovação começa a ser encarada como uma tarefa cotidiana, de todos os escalões. Na maior parte das vezes, ela não nasce de uma inspiração súbita, mas, sim, de um processo organizado, controlado e medido. A inovação que fará a diferença para as empresas -- e para os países -- no século 21, especialmente em nações com as características do Brasil, vai ser cada vez mais parecida com os exemplos que você encontra nos quadros que ilustram esta reportagem. Todos foram extraídos do livro 101 Innovation Breakthroughs ("101 inovações revolucionárias"), recém-compilado pela Monitor.



O indiano Patel, coordenador do trabalho, selecionou seis casos brasileiros no compêndio. Dois deles são de fato baseados em pesquisa e tecnologia: os jatos de médio porte da Embraer e o sistema eletrônico que é o coração dos motores flex, desenvolvido pela subsidiária brasileira da Magneti Marelli. Mas os outros quatro têm outro perfil. Tome-se, por exemplo, a novata 24X7, criada pelo médico Fábio Bueno Netto. A 24X7 adapta máquinas automáticas de refrigerantes para vender livros a preços populares em estações de metrô. O empreendimento ilustra o ganho que países emergentes podem ter com a adaptação de tecnologias já disponíveis em seu mercado. Outro exemplo brasileiro mencionado por Patel nem sequer envolve computadores. A rede de revendedoras da Natura, que conta com mais de 450 000 integrantes, é elogiada pela ampla cobertura geográfica e pela proximidade das consultoras com o universo das consumidoras. O fato de empresas como a Natura e, especialmente, a 24X7 dividirem as páginas do livro com gigantes como Motorola, Chrysler e Adidas demonstra os avanços que as empresas brasileiras têm obtido no que diz respeito à inovação. Mas ainda há muito a fazer.




Quando se olham as estatísticas, o Brasil desponta num patamar de confortável liderança entre as demais economias latino-americanas, mas ainda está distante em relação a países emergentes asiáticos, sobretudo a Índia e a China. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), órgão do governo federal, cerca de 1 200 empresas brasileiras, que representam cerca de um quarto do PIB industrial do país, estão aptas a competir globalmente. Juntas, elas investem cerca de 7 bilhões de reais por ano em pesquisa e desenvolvimento. Para efeito de comparação, só 5,3% das empresas mexicanas e 12,7% das argentinas podem se considerar inovadoras de primeira classe, ante 25,2% das companhias brasileiras, de acordo com o levantamento do Ipea. Mas comparações sempre se fazem com quem está em melhor situação, e diante da China estamos mal. A potência asiática investe cerca de 1,2% do PIB em P&D, o dobro do Brasil. "Estamos no caminho certo, mas precisamos investir ainda mais na geração interna de tecnologia", diz o economista João de Negri, diretor do Ipea.



Além dos conhecidos obstáculos impostos pela burocracia e pelo sistema tributário do país, os inovadores brasileiros têm de vencer uma importante barreira cultural. A imensa maioria das inovações costuma ser precedida por um grande número de fracassos. Patel, da Monitor, argumenta que o preço de uma experiência malsucedida é bem mais alto em São Paulo, Xangai e Nova Délhi do que em Nova York ou Frankfurt. E, mesmo em comparação com outros países em desenvolvimento, o Brasil ainda está atrasado. No entender do consultor, chineses e indianos já são mais arrojados do que os brasileiros e têm o olhar mais voltado para o mercado mundial. "A Índia, por exemplo, hoje tem dezenas de grandes corporações, como a Mittal Steel e a Tata, que competem de igual para igual com os americanos e os europeus", diz Patel. Já a maioria das companhias brasileiras, salvo honrosas exceções, como a Gerdau, a Embraer e a Petrobras, vê o Brasil, e não o mundo, como seu único mercado.

Esse conservadorismo cobra um preço alto do país. De acordo com um estudo a ser publicado pelo Banco Mundial, a falta de espírito inovador nas empresas daqui é o maior vilão do baixo crescimento econômico do país. "Por si só, o custo Brasil não explica por que a economia brasileira não cresce mais e de forma mais sustentável", diz o colombiano Alberto Rodríguez, chefe da equipe que elabora o estudo. Rodríguez argumenta que, a exemplo do Brasil, tanto a China quanto a Índia também enfrentam sérios problemas em termos de infra-estrutura, burocracia e governança. A diferença estaria no fato de que nas últimas décadas os dois países asiáticos passaram por grandes saltos de produtividade -- impulsionados por inovações. Segundo o estudo, dois fatores principais têm freado a inovação brasileira: o baixo nível educacional da mão-de-obra e a incompreensão, dos setores público e privado, do significado contemporâneo de inovação. "Os empresários e os governantes brasileiros precisam entender que o Brasil não deve ficar tentando inventar o novo iPod, e sim concentrar seus esforços para inovar e agregar valor em setores em que já apresenta vantagens competitivas, como o de biocombustíveis", diz Rodríguez.

Talvez o ponto mais polêmico do trabalho esteja na recomendação, a ser feita pelo banco, de que os empresários brasileiros, grandes ou pequenos, dêem prioridade ao que Rodríguez chama de "inovação pela dispersão". O nome é propositalmente vago. Engloba desde a realização de eventos que propiciem a troca de informações, como feiras e seminários, até alternativas menos, digamos, nobres, como o roubo de funcionários da concorrência. O próprio Alberto Rodríguez reconhece que muitas vezes tal tipo de inovação não é um processo limpo ou bonito, mas pode ser muito eficiente. Ele aponta o exemplo da Espanha. No final dos anos 80, o parque industrial espanhol era antiquado e pouco produtivo. Mas, sobretudo a partir do compartilhamento do know-how, hoje os espanhóis são um dos mais fortes participantes europeus do setor de manufaturas e de serviços. Com sua linha de roupas inspiradas na alta-costura européia, mas a preços acessíveis, a grife Zara é um bom exemplo do sucesso espanhol. Rodríguez sustenta que, além da Espanha, o Japão e a China adotaram estratégias de desenvolvimento tecnológico similares, começando pela cópia para só depois se arriscar com novos projetos. "É daí que vem a maior chance de a produtividade crescer no Brasil", diz Rodríguez. "Nossos modelos indicam que o Brasil poderia aumentar em até dez vezes sua produtividade por meio da disseminação do conhecimento."



Essa estratégia não terá nenhum efeito, porém, se a qualidade do ensino básico não melhorar drasticamente. Grande parte dos operários e técnicos brasileiros é incapaz de desempenhar funções intelectuais elementares, como a leitura de manuais e as operações aritméticas básicas. No interior paulista, por exemplo, é difícil encontrar um operador de trator que saiba usar a tecnologia GPS. "Nós, empresários brasileiros, temos de agir rápido no sentido não só de capacitar nossa mão-de-obra mas também de apoiar políticas de aprimoramento do ensino básico", diz o empresário Jorge Gerdau. "Não se trata de filantropia, mas de investirmos em competitividade." Recentemente, a Gerdau patrocinou uma conferência sobre inovação em Brasília, que reuniu cientistas, políticos e empresários brasileiros e americanos. A utilização eficiente do dinheiro público na educação e em ciência e tecnologia foi um dos tópicos mais discutidos. Na ocasião, o sociólogo Glauco Arbix, coordenador do Observatório de Inovação da Universidade de São Paulo, formulou com clareza o principal desafio do momento. "Pesquisa básica é uma forma de usar dinheiro e transformá-lo em conhecimento", disse. "Já a inovação é uma forma de usar conhecimento e transformá-lo em dinheiro."

Fonte: Por Angela Pimenta

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